{"id":1141,"date":"2020-12-20T23:27:25","date_gmt":"2020-12-21T02:27:25","guid":{"rendered":"http:\/\/eduvir.com.br\/hmlg\/?p=1141"},"modified":"2020-12-20T23:27:25","modified_gmt":"2020-12-21T02:27:25","slug":"para-um-exame-de-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/eduvir.com.br\/novo\/2020\/12\/20\/para-um-exame-de-consciencia\/","title":{"rendered":"Para um exame de consci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempos, venho observando que, ao terminar meus workshops, aulas ou ao final de uma reuni\u00e3o, restam uma quantidade de pap\u00e9is, copos de pl\u00e1stico para \u00e1gua ou copinhos de caf\u00e9 sobre as mesas. \u00c0s vezes, at\u00e9 as notas registradas por alguns.<\/p>\n<p>E, nesses momentos, eu me pergunto o que leva as pessoas a abandonarem seu \u201clixo\u201d? Quais ser\u00e3o os pensamentos e as cren\u00e7as que sustentam esse comportamento?<\/p>\n<p>Minha suposi\u00e7\u00e3o para o fato, traz o contexto em que a sociedade brasileira foi criada. Uma sociedade que se estabeleceu em meio \u00e0 escravatura, na qual, a sinhazinha ou sinhozinho possu\u00edam (do verbo ter) mucamas e servi\u00e7ais para lhe atender e cuidar de seu bem-estar.<\/p>\n<p>Passei a chamar esse comportamento de \u201cmentalidade escravocrata\u201d. E, se me expandir um pouco mais, percebo que, no tratamento de pessoas que prestam servi\u00e7os, tamb\u00e9m essas atitudes se fazem presentes.<\/p>\n<p>Foi emblem\u00e1tico para mim observar que, na academia que eu frequentava, nas aulas de spinning, algumas pessoas, em vez de encherem suas pr\u00f3prias garrafinhas de \u00e1gua, entregavam-nas a uma senhora da limpeza para que ela as enchesse. Aguadeiros modernos.<\/p>\n<p>O artigo que me despertou para essas observa\u00e7\u00f5es foi escrito por Roberto Damatta, publicado pela CNI \/ SENAI, a respeito da imagem do engenheiro na sociedade brasileira. Em uma parte do texto, diz o autor:<\/p>\n<p>\u201cMas, mesmo abolida, a escravid\u00e3o est\u00e1 na raiz do sistema social brasileiro. Foi ela quem sustentou esse personalismo sem o qual n\u00e3o se entende a opera\u00e7\u00e3o de nosso sistema pol\u00edtico. Foi ela tamb\u00e9m quem sustentou a hierarquia que at\u00e9 hoje, doce ou autoritariamente, por favor ou ordem, comanda quem vai \u201cpegar o copo d\u2019\u00e0gua\u201d, \u201cfazer o cafezinho\u201d, \u201cservir \u00e0 mesa\u201d, \u201cir ao banco\u201d e \u201carrumar o quarto\u201d. Imposs\u00edvel n\u00e3o citar, neste contexto, uma observa\u00e7\u00e3o de Luccock quando visitava uma casa brasileira e surpreendia, com seu olhar igualit\u00e1rio de ingl\u00eas, o comportamento de uma dama carioca sentada numa esteira e rodeada e suas escravas: Junto e ao alcance da m\u00e3o estava pousado um canjir\u00e3o d\u2019\u00e1gua. Em certo momento, interrompeu a conversa para gritar por uma outra escrava que estava em local diferente da casa. Quando a negra entrou no quarto, a senhora lhe disse: \u2018D\u00ea-me o canjir\u00e3o\u2019. Assim fez ela, sua senhora bebeu e devolveu-lho; a escrava recolocou o vaso onde estava e retirou-se sem que parecesse ter dado pela estranheza da ordem, estando talvez a repetir o que j\u00e1 fizera milhares de vezes antes. (LUCCOCK, 1820, p. 48). \u00c9 \u00f3bvio que a \u201cestranheza\u201d exprime o etnocentrismo de car\u00e1ter igualit\u00e1rio do observador, abismado com o que percebia como in\u00e9rcia ou pregui\u00e7a da dona da casa, incapaz de mexer-se para pegar a botija d\u2019\u00e1gua situada ao alcance de sua m\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>E nas pra\u00e7as de alimenta\u00e7\u00e3o dos shoppings? \u00c0s vezes, n\u00e3o encontramos onde sentar porque as pessoas n\u00e3o retornaram as bandejas usadas.<\/p>\n<p>Por isso, nesse dia da consci\u00eancia negra, recomendo que voc\u00ea fa\u00e7a um exame de consci\u00eancia, lembrando de suas atitudes e pensamentos \u201cescravocratas\u201d, e proponha uma mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se justifique, dizendo que esse comportamento mant\u00e9m o emprego de outras pessoas. \u00c9 o que desejamos para elas?<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o deixar os locais arrumados para os que vir\u00e3o, na expectativa de que algu\u00e9m fa\u00e7a o servi\u00e7o e limpe nossa bagun\u00e7a?<\/p>\n<p>Pense e repense.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Refer\u00eancia<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">DaMatta, Roberto. Imagem do engenheiro na sociedade brasileira. Bras\u00edlia: SENAI\/DN, 2010. 34 p.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/www.portaldaindustria.com.br\/publicacoes\/2012\/7\/imagem-do-engenheiro\/\">http:\/\/www.portaldaindustria.com.br\/publicacoes\/2012\/7\/imagem-do-engenheiro\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempos, venho observando que, ao terminar meus workshops, aulas ou ao final de uma reuni\u00e3o, restam uma quantidade de pap\u00e9is, copos de pl\u00e1stico para \u00e1gua ou copinhos de caf\u00e9 sobre as mesas. \u00c0s vezes, at\u00e9 as notas registradas por alguns. 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